Grupo Rumo – Cinzas corações paulistas

Grupo Rumo – Cinzas corações paulistas

Grupo Rumo – Cinzas corações paulistas. Nos anos 80, a Radio Fluminense no Rio de Janeiro tocava uma programação musical

Grupo Rumo – Cinzas corações paulistas.

Nos anos 80, a Radio Fluminense no Rio de Janeiro tocava uma programação musical alternativa que ia muito além do B-Rock, reggae e blues. A música popular brasileira também marcava presença, mas de uma forma um pouco “diferente” . Uma das bandas que merece destaque daquele período rico e raro da história das rádios no Brasil é o Grupo Rumo.

O Grupo Rumo foi criado por Luis Tatit em 1974 juntamente com Hélio Ziskind, Geraldo Leite, Paulo Tatit, Gal Oppido, Zecarlos Ribeiro e Akira Ueno (nos anos seguintes, ainda ingressariam no grupo Pedro Mourão (1976), Ná Ozzetti (1978) e Ciça Tuccori (1980), e tinha como propósito ampliar as perspectivas de composição, interpretação e arranjo instrumental da canção popular brasileira.

Entre os anos de 1975 a 1984 o grupo se apresentou no Teatro Lira Paulistana onde outros artistas independentes exibiam sua arte experimental. Este período extremamente criativo da cidade de São Paulo foi denominado de Vanguarda Paulista .

Alem do Rumo, a Vanguarda Paulista revelou nomes como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque, Patife Band e Língua de Trapo. O movimento pode ser considerado um dos acontecimentos musicais mais importantes no Brasil como a Tropicália e os festivais nos anos 60, o Clube da Esquina em Minas nos anos 70 e o Mangue Beat nos anos 90.

Toda a magia da Vanguarda Paulista estava concentrada na originalidade criatividade e inovação. No caso do grupo Rumo a percepção imediata desta originalidade vinha do fato das musicas não serem exatamente cantadas. Elas também eram descritas, faladas como em uma conversa banal. Isso tornava a música do Rumo uma experiencia sensorial diferente e inesquecível que permitia ao ouvinte mergulhar no cotidiano dos personagens imaginados em cada canção.

Desde então e até hoje as letras geniais de Luis Tatit, (agora em carreira solo) valorizam a riqueza da lingua portuguesa e criam uma atmosfera lírica e poética que descreve cinematograficamente sentimentos como euforia, dores, solidão, medos e desconfortos daqueles que, a esta altura, já não são mais personagens e sim parte de nós mesmos, tamanha a identificação que sentimos com seus dramas pessoais extremamente banais.

Estes acontecimentos banais contam diferentes histórias, como por exemplo: as reflexões de uma mulher que percebe o vazio existencial de sua vida enquanto se arruma para o trabalho (Falta alguma coisa); a solidão de um burocrata que enlouquece ao ver os azulejos e os pisos do seu escritórios serem quebrados após uma obra (Dia Util); a dificuldade de fazer uma mulher sorrir (Sorriso) ou a dificuldade de mostrar uma nova canção a uma amiga (Canção bonita); a tímida declaração de amor  a uma mulher mais velha (Bem baixinho) ou mais gordinha (Diletantismo); o drama de um homem com os acontecimentos que envolvem os personagens de sua telenovela preferida (Mesmo Porque); a beleza do nascimento (A hora da vida) ou a beleza dos pingos de chuva nas poças d`agua no centro velho de São Paulo (Ladeira da Memória).

Fechando o cliclo somamos a tudo isso os arranjos lindíssimos e as vozes de  Suzana Salles, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros, Vânia Bastos e Ná Ozzetti, que transformam estas banalidades do cotidiano em momentos belíssimos de estranha e extrema humanidade acinzentada que só São Paulo pode proporcionar.

O Grupo Rumo é único e tem um lugar especial no coração da Lapaloop. Saboreie.

 

FELICIDADE

Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!

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