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Girl Band – Ser, ter e parecer que tem.

 

As décadas e gerações são marcadas por identidades que estão diretamente ligadas ao status quo do seu momento. Por exemplo a década de 70 pode ser conhecida como a década do ser, pois a sociedade se inspirava nas ideologias iniciadas dos anos 50/60 pelos movimentos hippies e beatnik, nas lutas dos direitos civis nos EUA, as revoluções de 68 na Europa, etc….A evolução disso tudo foi uma geração pensante que sentia orgulho em declarar um discurso voltado para a relação positiva com o outro ser humano, com a natureza, o planeta, etc…

Já nos anos 80 e 90, o crescimento do poder aquisitivo gerado pelas grandes corporações nos maiores impérios capitalistas globais inspiravam a geração de yuppies que vendiam a alma ao diabo para comprar absolutamente tudo que o dinheiro pudesse conquistar, desde os caros e revolucionários brinquedinhos eletrônicos criados pelas novas e assustadoras tecnologias até mansões, iates, Ferraris e pessoas sem o menor pudor.

Já as décadas seguintes até hoje criam uma geração de seres humanos totalmente envolvidos com as possibilidades alienantes que a internet e as redes sociais podem oferecer, desde uma vida virtual secundária completamente distante da sua deprimente realidade até imagens e videos pré-formatados que constroem a imagem de uma vida perfeita para todos nós e coloca um ponto final neste vazio limítrofe a que chegamos. Discursos cautelosamente  construídos, atitudes politicamente corretas e imagem hype denunciam uma ignorância absoluta sobre nós mesmos e nos coloca no paredão da verdade que impõe a dolorosa pergunta: E agora?

A banda irlandesa Girl Band não tem letras existencialistas o suficiente para me fazer pensar em tudo isso mas ao ouvir sem parar a musica da banda eu fiz sim esta reflexão. Refleti sobre isso simplesmente assistindo a verocidade raivosa e sarcástica da performance de Dara Kiely e sentindo a energia e brutalidade na forma como os instrumentos são tocados pelo resto da banda ( Alan Duggan – guitarra, Daniel Fox – baixo e  Adam Faulkner – bateria ) que assustadoramente transmitem uma  suavidade e serenidade contraditória e contemplativa nos seus rostos enquanto destroem tudo ao redor.

O que se passa nas cabeças destas caras? Como fazem esta mágica acontecer?

Extremamente viciante e poderoso o som da banda vem sendo comparado com algumas das maiores bandas do passado ou que estão hoje por ai. Eles podem estar alem. Parecem um mix de um Nirvana sobrevivente e mais amadurecido com um Pink Floyd de psicodelia mais eletrificada e um Radiohead ainda mais atonal.

As letras são impregnadas de enigmas indecifráveis onde tudo parece ter um duplo sentido e a sonoridade de todas as musicas criam uma expectativa constante para a chegada de um grito barulhento que se intercala magistralmente com os sussurros e silêncios agonizantes. Isto é o que torna a musica do Girl Band única e sensacional.

A sensação que fica é que após tudo que vivemos nas ultimas décadas não nos tornamos seres melhores e estamos agora agonizantes diante do nada que os próximos dias prometem trazer.

Definitivamente o Girl Band é a linha divisória entre este  “parecer que tem” atual  para os incertos dias futuro.

 

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